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Publicado em 20 de julho de 2020

Uma lição de vida para os amigos: o depoimento online do médico Ramiro Zilles

Dezenas de associados da Sociedade Brasileira de Quadril, SBQ, se emocionaram ao acompanhar, pelo programa ‘Encontros Virtuais com Amigos Verdadeiros’ o depoimento de Ramiro Zilles Gonçalves sobre “a proximidade que tive com a morte”.

Na noite de 29 de junho ele manteve em suspense uma grande plateia distribuída por todos os Estados brasileiros, enquanto contava dos primeiros sintomas que sentiu, dos muitos exames que enfrentou, das dúvidas sobre operar ou não o cérebro para eliminar uma metástase, dos longos tratamentos e dos efeitos colaterais ainda hoje presentes e, principalmente, o que passa pela cabeça, quando se acredita que a vida está chegando ao fim. 

“Tenho que sobreviver até que meus filhos lembrem do pai – essa é minha primeira meta”. E os pensamentos e decisões que tomou nas longas noites na UTI, ele transmitiu a uma plateia que, nesse tempo de pandemia, não tinha como deixar de se colocar no lugar do cirurgião/paciente que falava. 

Tudo começou em meados de 2018 com uma fadiga maior que de costume, mas achava que tinha motivos suficientes para isso: bastante trabalho e dois filhos pequenos. Até que, em determinada noite, acordou sentindo uma dor torácica e, como permaneceu com o sintoma durante o dia seguinte, decidiu realizar uma radiografia de tórax.

O radiologista disse quer “parece haver uma área de pneumonia” e o tratamento foi iniciado com antibiótico, conforme orientação da pneumologista.

Apesar do tratamento instituído, os sintomas evoluíram e, sem deixar de atender aos cinco pacientes que tinha internados, Zilles fez uma broncoscopia. Após o procedimento, ficou sentindo tontura, desequilíbrio, mas achou que havia de melhorar depois de uma boa noite de sono. 

Na manhã seguinte, percebeu que era algo grave quando tentou vestir a calça e errou a perna. Conta ele. Foi essa percepção que motivou sua ida à emergência do hospital, o que desencadeou sua primeira internação e o diagnóstico do câncer de pulmão com uma metástase cerebral. “Recebi a notícia como uma sentença de morte”. 

          “Percebi que era algo grave no dia que fui vestir a calça e errei a perna”, conta ele, e depois de consultar um neurocirurgião amigo, fazer uma ressonância, ser internado e fazer a biópsia, o choque foi ver a patologista entrar chorando com o resultado, um adenocarcinoma de pulmão com metástase cerebral, “que recebi como uma sentença de morte”. 

Cerca de dez dias após, já estava novamente internado para a cirurgia de ressecção da metástase cerebral. “Em todos os movimentos aceitei as decisões e escolhas das equipes médicas que me foram indicadas”, diz Zilles, mas o neurocirurgião foi uma escolha pessoal, um amigo, colega de faculdade, extremamente competente e que tinha certeza que daria conta. 

“A cirurgia foi muito bem-sucedida, sem nenhuma sequela neurológica e, no dia da alta, recebi o resultado da análise de mutações que possibilitaria um tratamento chamado ‘terapia-alvo’, específico para a mutação encontrada”.

Após alguns dias em casa, já utilizando o medicamento por via oral, começaram as primeiras complicações. Foi necessária uma nova internação por trombose venosa nas duas pernas e plaquetopenia, que impossibilitaram o início da anticoagulação. Foi preciso colocar um filtro de veia cava. Mesmo assim, ocorreram tromboses em outros locais, no membro superior, que desencadearam embolia pulmonar, internação em CTI e procedimentos endovasculares.

“Seguia com tosse com sangue, plaquetas baixas e precisando fazer a anticoagulação; o jeito foi começar sessões diárias de radioterapia para tratar o tumor e parar o sangramento. Diariamente, era levado do hospital para a unidade de radioterapia, sempre de ambulância”. 

Zilles explica que foram duas semanas desse tratamento, que foi eficaz em parar com o sangramento no escarro, mas que mais adiante resultaria numa estenose esofágica. 

“Com tantas complicações, foi necessário interromper o tratamento com a terapia-alvo para o câncer”. Cerca de um mês depois, foram feitos novos exames e a doença havia progredido muito: metástases abdominais, ósseas. O oncologista decidiu refazer a análise molecular das mutações tumorais e iniciou um tratamento baseado em quimioterapia e imunoterapia, até que novos resultados estivessem disponíveis. “Não tínhamos tempo para esperar”. 

Seguiram-se mais efeitos colaterais, pancitopenia, emagrecimento, fraqueza, dor para comer, por causa dos efeitos da radioterapia do tórax, que provocaram a esofagite e estenose do esôfago. “Cheguei a chorar na frente dos meus filhos, quando tentava fazer uma refeição e não conseguia, tamanha a dor para engolir”. 

Quando o resultado dos novos exames genéticos ficaram prontos, a surpresa: o primeiro resultado estava equivocado, foi detectada outra mutação para a qual havia outro medicamento específico a ser utilizado.

“Havia recomendações de apelar para a religião, relatos de casos que se resolveram com este ou aquele tratamento, gente que queria vender tratamentos alternativos, até o conselho para ouvir um médium que, mais tarde, soube que era o João de Deus”.

O que passa pela cabeça

Metódico, Ramiro Zilles anotou todos os sintomas que sentia e conta que, ingênuo, pegou uma folha de papel pensando em anotar três ou quatro coisas. “Hoje, a folha está coberta de ponta a ponta, dos dois lados”, diz ele. 

E da mesma forma que os sintomas, ele foi registrando os pensamentos. O primeiro: Viver para quê? E a análise da vida, do casamento, da família, do bem que tentou fazer, do atendimento dos carentes, sem cobrar, será que valeu?

“O porque eu, porque comigo? Meu avô está vivo há 96 anos, não há um único caso de câncer na família, só tenho 40 anos, porque eu”. E a resposta que veio com o tempo, “Porque não eu? ”

As metas para o tempo restante também foram importantes, “os pequenos infinitos”. Zilles se preocupava com os filhos, cinco anos e um ano e meio, “o que posso fazer para que eles se lembrem do pai?” E o filme ‘A culpa é das estrelas’, uma garota condenada, câncer, e a lição de que não é necessária uma vida longa, mas como se vive a vida. 

“E isso muda a vida, o enfoque da gente, inclusive como paciente”. Ele reconhece que o médico não se trata bem quando está doente, é voluntarioso, rebelde às vezes, não se põe na posição do paciente. E hoje, tendo passado pela experiência de paciente, Zilles entende muito melhor seus pacientes.

“E como é a morte? Não posso falar porque afinal não morri”, mas ter que encarar a possibilidade muda as perspectivas, a análise do prognóstico não era muito boa, a família, o trabalho, assumem nova dimensão e depois de algum tempo a pessoa se sente preparada para ir embora.

A doença ensinou também que há uma dicotomia da resiliência versus a coragem. “A coragem é a principal virtude do paciente oncológico”, afirma Zilles, que faz um paralelo com o lutador Balboa do filme: “não importa quanto é capaz de bater no adversário, mas sim quanto consegue apanhar, 14, 15 rounds…” 

Outra lição da doença é vencer a tentação de parar de lutar, à qual alguns se entregam. “Eu aguentei firme, porque precisei”, confessa Zilles. É mais fácil aguentar quanto se tem religiosidade, pensamento positivo, auto- controle, quando a gente relaciona o que queria fazer na vida e ainda não fez, mas aceitar a doença também é difícil e não ajuda fazer a negação, dizer: “isto não está acontecendo”. 

É preciso encarar a realidade… e foi isso que fiz. Aos poucos, ficou claro que era possível vencer, que os avanços recentes da Medicina tornaram possível a recuperação no que há alguns anos era uma condenação certa e irrecorrível. E então, sete meses depois do início de tudo, e parece que foi muito mais, Zilles estava lá, de novo no centro cirúrgico, mas voltando a operar seus próprios pacientes. 

Hoje, recuperado, Zilles só não gosta da ‘pergunta desgraçada’. É quando alguém bate nas suas costas e pergunta: “E aí, tudo bem, você está 100% de novo”? 

“É claro, é óbvio que não estou 100%. O tratamento continua, os efeitos colaterais também. Vem aí mais uma pneumonite e é preciso combate-la, uma erupção cutânea, a diarreia é tão frequente que é preciso tomar ‘Imosec’ todos os dias, “mas quem precisa estar 100 %? ”. 

“Estou vivendo um novo normal”, conclui Ramiro Zilles, feliz por estar vivo, olhando o mundo de outra forma. “Estou tão feliz, que resolvi comemorar e reuni todo o pessoal que fez Quadril comigo, e isso é bom, tiramos uma foto juntos, matamos a saudade”. 

Ele termina o depoimento contando que um dos muitos amigos que o apoiaram lhe entregou uma camiseta com uma mensagem muito significativa: ‘What do we say to the god of death? NOT TODAY’.

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