Ex-presidente da SBQ, Luiz Sérgio Marcelino Gomes é apaixonado pela pesquisa

Apesar de fazer bastante sucesso com a banda de jazz e blues que montou durante a juventude, a vocação pela Medicina foi tão forte e repentina, que provocou a guinada que levaria Luiz Sergio Marcelino Gomes a se tornar o primeiro médico de sua família e a se dedicar à cirurgia do quadril, paixão que já tem mais de 40 anos.

Apaixonado pela pesquisa, aprofundando-se agora no tema da infecção, tanto que assumiu a presidência da Associação Brasileira para o Estudo de Infecções e Implantes Ostearticulares, Marcelino tem no currículo a realização da primeira prova de título da SBQ, além da criação da JOPPAQ cuja primeira edição reuniu em Taubaté um pequeno grupo, apenas uma vintena de ortopedistas.


O Quadril – Se não havia médico na sua família nem ligação maior com a Medicina, como explica sua opção pela área?
Marcelino – Não explico. A vocação veio forte, de repente e não muito cedo na vida. Não houve influência alguma, mas apesar do sucesso da banda – eu tocava e toco guitarra e também cantava -, não tive dúvidas de que o caminho era a Medicina e, embora seja natural de Santo André, me formei na USP de Ribeirão Preto. Mas nunca esqueci a banda, que continua atuante e hoje é integrada apenas por médicos e de várias especialidades, gastro e cardiologista entre elas.

O Quadril – E dentro da Medicina, o que mais o atraiu?
Marcelino – Jovem ainda, me chocava muito no trauma, a facilidade com que uma pessoa dinâmica até há poucos minutos, tinha subitamente suas perspectivas futuras frustradas após um acidente. Em consequência me interessei pela reabilitação, e então comecei a trabalhar com plástica reconstrutora, área muito difícil.

O Quadril – E como foi a opção pelo quadril?
Marcelino – Ainda na Residência recebi importante impulso do professor José Batista Volpon, que me deu uma boa visão da pesquisa e com seu espírito científico muito aguçado me orientou tanto para a pesquisa básica, como clínica. O mestrado e o doutorado na USP consolidaram essa tendência e quando fiz um fellowship em Minneapolis, tive a sorte de trabalhar com Ramon Gustilo, chefe do Serviço que já tinha desenvolvido próteses e que é um dos iniciadores da artroplastia moderna. Cheguei a publicar trabalhos junto com ele, que me garantiu ainda ao primeiro contato com a biomecânica.

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 – Foi esse estágio nos EUA que o levou a investir na pesquisa de novos implantes?
Marcelino – Posso dizer que sim. Já no Brasil, o Laboratório de Metalurgia Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul me convidou para trabalhar quando da implantação do laboratório de implantes. Fiquei por  cinco anos e acabei orientando várias teses, tanto de mestrado como de doutorado.

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 – E sua vida associativa, como começou?
Marcelino – Éramos poucos os ortopedistas que tendiam a se especializar em quadril, naquela época, tanto que não havia nenhum centro oficial e credenciado de formação de R-4. O então ‘Comitê’ do Quadril era pequeno e quando evoluiu para Sociedade de Especialidade, eu já estava nele, sou um dos fundadores. Essa participação acabou tornando natural que na gestão Nelson Franco/Ademir Schuroff fosse criado o primeiro centro credenciado, em Batatais, onde eu já me fixara. Era o SECROT – Serviço de Cirurgia e Reabilitação Ortopédica e Traumatológica da Santa Casa. E como era o primeiro, atraiu profissionais hoje altamente conceituados e vindos de longe, do Rio de Janeiro e até da Argentina. 

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 – E esse trabalho acabou resultando na sua eleição para a presidência da SBQ?
Marcelino – Não sei se foi. O que me marcou é que na minha gestão, 2010/2011, a SBQ era bem menor e o problema era fazer com que fosse de fato uma entidade nacional, aproximar os membros dos Estados, esparsos, pois 80% dos sócios eram do Sudeste. Felizmente contamos com a dedicação e a boa vontade de dezenas de médicos que ajudaram na coesão. Foi tão importante, que a SBQ se transformou numa grande família, todos com o mesmo ideal e as amizades criadas são imorredouras.
A partir de então tornou-se mais fácil superar as dificuldades. Com uma empresa especializada, fizemos o primeiro Planejamento Estratégico para desenvolver a Sociedade, demos um formato estruturado à SBQ, mas isso não foi trabalho só do presidente, mas de toda a equipe e das administrações anteriores de Milton Roos e Ademir Schuroff. E essa equipe também renovou o quadro de palestrantes, abrimos as portas para os mais jovens, caso contrário, dizíamos, “d aqui a d ez anos estaremos palestrando de bengala”.  E isso levou à formação de novas lideranças. 
Nem tudo foram flores, porém. Como participei da Comissão de Registro de Implantes da SBOT em 2008/2009, junto com Luiz Carlos Sobania e Roberto Canto, tentei implantar um programa de Registro e Rastreabilidade na SBQ (REMPRO-SBQ), mas acredito ter sido muito ambicioso, em um cenário que, embora com muita dedicação, faltou estrutura, suporte, e talvez ainda não fosse a hora certa. Vai ficar para administrações futuras.

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 – E a JOPPAQ, como nasceu?
Marcelino – Bruno Lombardi tinha assumido a SBQ Paulista, e como eu sou muito ligado a ele, me pediu a montagem de um evento para reunir o pessoa l de São Paulo. Nasceu o que era a ‘Jornada de Patologia do Quadril’, nome a que depois se acrescentou o ‘Paulista’. Nelson Franco se entusiasmou com a ideia, fizemos a primeira edição em Taubaté, pouco mais de 20 pessoas, a segunda em Ribeirão, já saltou para 200. 
A JOPPAQ mudou, deixou de ser anual para ser realizada  a cada dois anos, sendo duas edições em Campinas, antes de se fixar definitivamente em Ribeirão. A última já teve 700 médicos e este ano faremos a XVIII JOPPAQ.

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 – E onde entra a preocupação com a infecção?
Marcelino – Essa é outra história. Fui escolhido como delegado brasileiro junto ao I Consenso Internacional em infeccões periprotéticas na Filadélfia em 2013, onde a elite mundial sobre o tema se fazia presente. Eleito presidente da Associação Brasileira de Infecções em Implantes Ortearticulares, trouxe a ASBIO para o evento, que interessa muito à subespecialidade de quadril. 
Curioso é que foi na JOPPAQ que se realizou a primeira prova oficial de título da SBQ, após um simulado prévio na gestão de Penedo, sem pontuação. E este ano, será na JOPPAQ o simulado da prova que voltará a ser feito neste evento e é importante para quem vai se candidatar ao exame que será no congresso nacional. Um outro aspecto importante para a cirurgia de quadril brasileira é que durante minha gestão também lançamos o primeiro livro sobre quadril em língua portuguesa O Quadril em 2010, e posteriormente o livro sobre cirurgia reconstrutora do quadril. Fui o edi tor em a mbos.

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 – Além de todas suas atividades, você é docente. Como consegue compatibilizar tantas funções, pesquisa e artigos científicos?
Marcelino – Acho que é obrigação, pois uma das funções da SBQ e de seus membros sêniores  é o ensino. Há três anos fiz concurso na pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, para intensificar a pesquisa em cirurgia do quadril.
Houve tempo também para: – desenvolver processos e instrumentais patenteados, além de implantes artroplásticos para substituição protética do quadril e joelho, hoje ainda em utilização clínica,  – colaborar no Conselho Editorial da revista ‘Hip International’, – ser editor de subespecialidade quadril da RBO – e, com apoio do ex-presidente e do presidente atual da SBOT ajudei a montar a recém-criada Comissão Especial em Infecções Musculoesqueléticas, da qual, com muita honra, sou presidente.
É claro que de vez em quando o estresse pesa. É para isso que serve nossa banda de jazz e blues que, com certo sucesso, reconheço, tem animado eventos de até 800 pessoas.

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