Do treinamento para atender casos de COVID à perda de companheiros, a saga dos associados em tempo de pandemia

No Hospital do Mandaquí, em São Paulo, Alexandre Penna operava, protegido como se o paciente tivesse COVID, os idosos, que deixando de contar com os cuidadores se acidentaram em casa, fraturando o fêmur. Em São Luiz, Raul Almeida nem teve escolha, estava entre os 13 ortopedistas convocados pela Federal do Maranhão para plantões na área de COVID, enquanto no outro extremo do Brasil, em Passo Fundo, Samuel Faccioni optou por continuar operando casos de artrose muito grave, apesar de estar numa região onde houve um dos maiores surtos concentrados do Brasil, num frigorífico com dezenas de infectados.

Já em Goiânia, Leandro de Oliveira foi treinado, inclusive em intubação, para com outros ortopedistas formar o ‘Batalhão de Reserva’, para atuar quando faltassem médicos na linha de frente, o que só não foi necessário porque num Estado governado por um médico ortopedista, o isolamento e a prevenção fizeram com que os casos de COVID não fossem numerosos. 

A experiência mais marcante dos cirurgiões de quadril parece ter sido de Fábio Moriya, de Belém. Preceptor, viu seus residentes trabalhando duro para substituir os plantonistas que faltavam e se contaminando, perdeu companheiros “para esse vírus que ainda não me pegou” e viveu o desespero dos doentes do Interior, de municípios paupérrimos e que chegavam para atendimento na Capital, onde o sistema estava no limite. “Felizmente agora, junho, parece que o pior já passou”, comemora ele.

Esses são os depoimentos de alguns dos integrantes da Sociedade Brasileira de Quadril que, de Norte a Sul, tiveram seu trabalho profundamente afetado pela pandemia causada pelo COVID-19 e que, além do temor da contaminação, da responsabilidade de atender quem corria risco de vida, foram afetados em seus ganhos, com os consultórios vazios e impedidos de operar. 

Agora, que a pandemia reflui, os especialistas em quadril se preparam para a nova batalha, prevista por Alexandre Penna: “se 50 mil casos de câncer não foram diagnosticados durante a pandemia, nem dá para calcular quantos pacientes de quadril esperam o ‘novo normal’ para serem operados; é um gargalo que se formou e que levaremos muito, mas muito tempo de trabalho duro, para conseguirmos eliminar”, diz ele.

Leandro Alves de Oliveira

“Quando ficou claro o tamanho da guerra que íamos enfrentar, soubemos que teríamos que ir para o front, quando os soldados da linha de frente tivessem caído”, teve três dias de treinamento muito intenso, explica. “Recebemos apostila, tivemos aula virtual e dois dias de presencial”. Uso de dois capotes impermeáveis, máscara N95, máscara de acrílico, luvas. E qualquer paciente que chegasse ao PS era considerado caso suspeito, o médico precisava atender como se estivesse contaminado.

Graças ao governador Ronaldo Caiado, ortopedista também, Goiás foi o primeiro Estado a decretar o isolamento. Foi de 12 de março a 20 de abril e a providência limitou os casos, cerca de 2.000 óbitos. A equipe de Leandro não teve precisou ir ao front, mas nem por isso deixou de ser afetada. 

No HUGOL – Hospital Estadual de Urgências – e o Hospital da Federal de Goiás as urgências continuaram a ser atendidas com todos os cuidados recomendados e quando, finalmente as cirurgias eletivas puderam ser reiniciadas, todo paciente fazia o PCR 48 horas antes e a operação só era marcada quando da certeza de que não estava contaminado. 

Raul Franklin de Carvalho Almeida

Em São Luiz, Maranhão, Raul Almeida, que é também o Regional da SBOT, orientou os colegas de todo o Estado e vivenciou o problema financeiro de muitos, afetados pelas limitações da pandemia. “As eletivas foram suspensas na segunda quinzena de março tanto na rede privada como pública”, os consultórios não tinham movimento, quem teve muita sorte, fez seis consultas por mês. Ele mesmo, passou um mês sem atender nenhuma.

“O povo também não tem dinheiro”, reconhece ele, e nosso trabalho se limitou a causos de trauma, que também foram pouquíssimos, e todos eram abordados como se o paciente estivesse contaminado. Com pouco trabalho na Ortopedia, os especialistas foram convocados para plantões no Hospital Universitário num setor que atendia COVID e não deu outra: alguns companheiros foram infectados, mas nenhum desenvolveu a forma grave da doença, e já estão recuperados, explica ele. 

Samuel Faccioni

Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, Samuel Faccioni tentou manter o atendimento durante a quarentena, mas muito reduzido. “Não tinha como não acompanhar os pós-operatórios e havia consultas de urgência”, diz ele, “mas fomos bem devagar”. Em casos de muito sofrimento, com muita dor, Samuel operou pacientes de quadril durante o trauma, fraturas trocantéricas, de fêmur e o volume dessas cirurgias ficou estável, fez até uma ou outra eletiva em casos de artrose muito grave, seguindo o protocolo. 

Samuel, cujo consultório é no Hospital São Vicente de Paulo, reconhece que quando a epidemia aumentou e os casos se multiplicaram, deu um certo pavor, mas manteve as consultas necessárias e felizmente não foi afetado diretamente, mesmo estando numa região bastante problemática. 

Fábio Vidal Moriya

Em Belém, onde o coronavirus se espalhou rapidamente, Fábio Moriya se ressente da morte de vários colegas médicos e ficou apreensivo quando por falta de plantonistas os ortopedistas precisaram atuar nos plantões. “Faltou tanto profissional, que foram chamados até cubanos que falam muito mal o português, muitos que eram do programa de Mais Médicos e que ficaram no Brasil”.

Os consultórios ficaram vazios, conta, quem tinha 100 consultas mensais, passou a atender 10 e as cirurgias de urgência eram poucas. Como preceptor de residência de Ortopedia, Moriya acompanhou a evolução da epidemia no Interior, oito hospitais regionais de urgência/emergência, alguns dos quais passaram a atender apenas a casos de COVID.

“Os residentes de Ortopedia passaram a atuar diretamente nos casos de COVID; não era obrigatório, mas eles optaram por atender e a maioria adoeceu”. O maior problema é que com um território imenso e municípios extremamente pobres, sem qualquer estrutura, os pacientes de COVID precisavam ser levados para a Capital, onde já havia saturação do sistema.

“Felizmente o pico parece ter passado”, disse ele no começo de junho, “e até agora não peguei a porcaria do vírus, mas nem sei se é motivo de comemoração”. Aos poucos, os consultórios voltam a ter atendimento, a esperança cresce, mas justamente quando tudo parece melhorar, “agora vai”, disse ele, Moriya recebeu a notícia de que um amigo de infância, muito querido, deu entrada no PS. E o caso era grave, e o amigo precisou ser entubado. 

Alexandre Penna Torini

Coordenador da Ortopedia da Beneficência Portuguesa e do Mirante (ex-São José), Alexandre Penna chefia o Grupo de Quadril do Hospital do Mandaqui, na periferia de São Paulo e assim, vive dois universos.

“No Inverno é normal o aumento de fratura do fêmur do idoso”, explica, mas com a pandemia muitos ficaram sem cuidadores e, com o confinamento domiciliar, os casos de acidentes foram mais numerosos. Os protocolos dos hospitais funcionaram bem, diz ele, o paciente que chega ao hospital privado passa por triagem, é checado o sistema respiratório e, feito o PCR, vai para uma ‘zona morna’. Não houve falta de vagas. Os hospitais operaram com 50% de ocupação durante a pandemia e, no caso das patologias de quadril, no começo de maio começaram a operar pacientes com quadro de muita dor. 

Já no hospital do Mandaqui, público, não foi assim. “Só operamos casos de trauma”. Houve aumento dos traumas de motociclistas que trabalham como entregadores de alimento, cuja demanda cresceu muito. Até motoristas de carros de aplicativo, passaram a trabalhar de moto e daí os traumas de alta energia, fratura de bacia, pelve e acetábulo. Na equipe, houve anestesistas que se infectaram, mas todos já se recuperaram”.

Alexandre Penna acha que o próximo passo é se preparar para a explosão de demanda pós-pandemia, no já chamado ‘novo normal’. Desde 20 de março os pacientes de consultório sumiram. Todo mundo que pode adia a ida ao médico, muitos casos cirúrgicos de artrose deixaram de ser operados e, com o fim da pandemia, acredita ele que essa demanda reprimida vai explodir.

“Os cirurgiões de quadril vão ter que trabalhar muito. E isso é bom, pois a categoria que foi tão afetada pela queda da demanda na pandemia, vai poder começar a se recuperar, tanto financeiramente, como em sua autoestima, fazendo o que faz de melhor e ajudando os pacientes a terem uma grande melhora em sua qualidade de vida”, conclui Penna.

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