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Artroplastia de Quadril: O que você precisa saber antes da cirurgia


Prof. Dr. Luiz Sérgio Marcelino Gomes

- Chefe do Grupo de Quadril do Hospital Celso Pierro- PUC-Campinas.SP.

- Chefe do Serviço de Cirurgia e Reabilitação Ortopédico-Traumatológica (SECROT). Santa casa de Batatais. SP.

- Presidente da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ).

- Maio de 2011 -


I. O QUE É A ARTROPLASTIA PRIMÁRIA DO QUADRIL?

        A Artroplastia Total Primária de Quadril ou simplesmente Prótese de Quadril é um procedimento cirúrgico que tem como objetivo substituir a articulação natural doente ou fraturada, por uma articulação artificial constituída por materiais não orgânicos chamados implantes protéticos.                            
        O quadril normal é uma junta formada pela cabeça do fêmur que se articula com uma cavidade da bacia chamada acetábulo ou cavidade acetabular (Fig.1A). Para o bom funcionamento da articulação é necessário que as duas porções da articulação (cabeça femoral e cavidade acetabular) estejam revestidas por uma cartilagem articular sadia que diminui o atrito e assim permite os movimentos necessários para as atividades diárias.
       Algumas doenças como a osteoartrite (artrose ou desgaste), artrites (princi-palmente a Artrite Reumatóide e Espondilite Anquilosante), distúrbios circula-tórios da cabeça femoral (osteonecrose) entre outras, podem ocasionar a lesão da cartilagem articular e assim evoluir para uma condição de destruição da junta, denominada genericamente de artrose ou desgaste (Fig.1B). Nesta situação o paciente apresenta dor e diminuição dos movimentos, o que dificulta suas atividades diárias e prejudica sua qualidade de vida.


Figura 1. Desenho esquemático de um quadril normal (A) constituído pelo Acetábulo (Cavidade Acetabular) e Cabeça Femoral. A Cartilagem Articular tem aparência normal (rosa). No quadril com Artrose (B) a cartilagem articular, do fêmur e do acetábulo, está destruída.
Figura 1. Desenho esquemático de um quadril normal (A) constituído pelo Acetábulo (Cavidade Acetabular) e Cabeça Femoral. A Cartilagem Articular tem aparência normal (rosa). No quadril com Artrose (B) a cartilagem articular, do fêmur e do acetábulo, está destruída.


      Quando o desgaste já está instalado, a artroplastia total de quadril é a opção mais eficiente de tratamento, pois restabelece os movimentos da articulação, alivia a dor e permite a realização de atividades comprometidas pela destruição da junta. Durante a operação, tanto a cabeça femoral como o acetábulo, são substituídos e por isto é chamada de artroplastia total.  O implante femoral protético é formado por uma haste metálica e uma cabeça protética que se articula com o implante acetabular (Fig.2).


Figura 2. Radiografias da série pessoal do Autor mostrando o quadril Normal (A), com Artrose (B) e do quadril do mesmo paciente mostrado em B após a Artroplastia (C).
Figura 2. Radiografias da série pessoal do Autor mostrando o quadril Normal (A), com Artrose (B) e do quadril do mesmo paciente mostrado em B após a Artroplastia (C).


II. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS BENEFÍCIOS DA CIRURGIA?


      A prótese de quadril é uma operação muito efetiva para aliviar a dor e melhorar a função do paciente. A qualidade de vida melhora muito porque o paciente consegue andar melhor e fazer a maior parte das atividades do dia-a-dia, sem grandes limitações e sem dor. Raros são os procedimentos cirúrgicos que apresentem uma relação risco/benefício tão adequados quanto a artroplastia total de quadril, sendo assim um procedimento seguro e eficaz no tratamento do desgaste do quadril1,2. Por este motivo milhões de ATQ são realizadas anualmente em todo o mundo, trazendo assim o benefício a milhares de pacientes que até algumas décadas atrás estavam condenados à incapacidade funcional, dor e perda da qualidade de vida.

III. QUAL A DURABILIDADE DE UMA PRÓTESE DE QUADRIL?

      É evidente que se a articulação natural se desgasta, a prótese de quadril também está sujeita ao desgaste. Sabe-se atualmente que, na ausência de complicações maiores, o desgaste depende do uso e não do tempo de implantação da prótese. Pacientes mais jovens e mais ativos irão apresentar desgaste em um tempo mais curto em relação aos pacientes com atividades mais restritas. De um modo geral, para uma pessoa com idade a partir dos 65 anos e atividades físicas moderadas ou leves, observa-se que o tempo em serviço (durabilidade) dos implantes protéticos é maior que 80% em 25 anos3. Assim, a probabilidade de que uma prótese de quadril implantada hoje, com técnica adequada, materiais de boa qualidade e implantes de boa concepção, tenha uma probabilidade de mais de 80% de ainda estar funcionante daqui a 25 anos.

IV. QUAIS MATERIAIS SÃO UTILIZADOS NA PRÓTESE DE QUADRIL E QUAL O MELHOR?

      A escolha dos materiais a serem utilizados na ATQ depende não só da idade como da atividade do paciente e também do tipo de fixação do implante.
     Quanto ao tipo de fixação os implantes podem ser agrupados em implantes cimentados ou não cimentados.
      Os implantes cimentados utilizam o cimento acrílico (cimento ósseo) para sua estabilização imediata. Neste caso o implante acetabular é constituído por um polímero plástico de polietileno que é cimentado na cavidade acetabular. Este polímero, cimentado, pode ser usado em sua forma convencional ou ainda tratado por técnicas que aumentem sua resistência ao desgaste, neste caso chamado de polietileno de ligações cruzadas, polietileno reticulado ou cross-linked. A haste femoral cimentada é constituída por ligas metálicas seja de Aço Inoxidável ou por super ligas como a de cromo-cobalto-molibdênio4.
    Os implantados não cimentados se utilizam de um princípio chamado fixação biológica, em que o osso cresce no interior de micro-espaços existentes no implante e assim permite sua estabilização (osteointegração do implante). Assim, o componente acetabular não cimentado requer uma cúpula metálica que irá se osteointegrar ao osso adjacente. A superfície protética, seja de polietileno ou outras especificadas mais abaixo, é encaixada na cúpula metálica. Nesta circunstância são mais frequentemente utilizadas nas cúpulas metálicas as ligas de titânio, como a de Titanio-Aluminio-Vanadio, ou mais recentemente o tântalo em circunstancias especiais. Alguns modelos de implantes associam a deposição de substâncias na superfície da prótese, como a hidroxi-apatita, com o objetivo de acelerar o processo de osteointegração.  A fixação inicial do implante não cimentado pode ser feita por ajuste sob pressão (press-fit) ou com o auxilio de parafusos no implante acetabular e detalhes específicos no modelo do implante femoral. Poucas são as opções de implantes femorais não cimentados constituídos por cromo-cobalto-molibdênio, em virtude de possíveis inconvenientes ligados à maior reabsorção óssea, quando comparados aos implantes de titânio. Muitos cirurgiões optam pelo uso de hastes femorais cimentadas e implantes acetabulares não cimentados, constituindo assim a chamada artroplastia híbrida.
      Muito embora exista uma tendência a se utilizar implantes não cimentados em pacientes mais jovens, não existe nenhuma evidência na literatura médica que comprove sua superioridade em relação aos implantes cimentados.

V. EXISTEM MATERIAIS MAIS RESISTENTES AO DESGASTE E QUANDO DEVEM SER UTILIZADOS?

     O processo de escolha da melhor superfície articular é bastante variável, pois deve considerar características especificas do paciente como doença de base, atividade, demanda para atividades mais vigorosas, atividades de impacto etc. O que apresentamos abaixo é tão somente uma sugestão, baseada em pesquisas clínicas e experimentais5 que, portanto podem ser alteradas em circunstâncias específicas ou de acordo com o entendimento do cirurgião:
- Cabeça Metálica e implante acetabular de polietileno convencional (Fig.3A):

      Usualmente a cabeça metálica articulando-se com o implante acetabular de polietileno convencional, que se constitui no padrão para ATQ primária, apresentam uma expectativa de sobrevivência entre 13-15 anos, e assim podem ser utilizadas em pacientes entre 65-70 anos de idade, desde que apresentem uma demanda para atividades mais restritas.

        Pacientes mais jovens e mais ativos requerem uma superfície articular de menor desgaste. Neste sentido, superfícies articulares de melhor desempenho devem ser utilizadas, tais como:


Figura 3. Fotografia de diferentes componentes acetabulares metálicos (não cimentados) e diferentes superfícies protéticas. (A): cabeça metálica/ Polietileno, (B): Cabeça cerâmica/cerâmica, (C): cabeça metálica/metal.
Figura 3. Fotografia de diferentes componentes acetabulares metálicos (não cimentados) e diferentes superfícies protéticas. (A): cabeça metálica/ Polietileno, (B): Cabeça cerâmica/cerâmica, (C): cabeça metálica/metal.


-Cabeça Femoral Metálica/ Implante Acetabular de Polietileno Reticulado (Cross-linked): O implante acetabular reticulado tem maior resistência ao desgaste. Estudos clínicos mostram que após 8 anos de funcionamento, o Polietileno cross-linked apresenta um desgaste 78% menor que o polietileno convencional6, e assim justifica-se sua utilização em pacientes entre 45-65 anos de idade, com demanda funcional para atividades leves a moderadas.

-Cabeça Femoral Cerâmica/ Implante Acetabular Cerâmico (Fig.3B): É uma superfície de baixo desgaste, porém pode estar associada à geração de ruídos audíveis e, com menor freqüência, à fratura do implante cerâmico7. Assim sendo sua indicação é bastante adequada para pacientes jovens que apresentem uma demanda funcional que não envolva o impacto repetitivo.

-Com o objetivo de diminuir a freqüência do ruído articular e a ocorrência de fratura, têm-se utilizado como opção, a cabeça cerâmica associada ao implante acetabular de polietileno reticulado (cross-linked), em pacientes jovens com maior atividade e maior demanda funcional.

-Cabeça Femoral Metálica e Implante Acetabular Metálico (Fig.3C): Também uma alternativa para pacientes jovens, apresenta baixo desgaste e grande resistência ao impacto. Deve-se considerar, contudo a possibilidade de reações à presença de íons metálicos (Cromo e Cobalto) no sangue e localmente nos tecidos ao redor da prótese. Por este motivo sua utilização em pacientes com função renal diminuída, mulheres em idade fértil e história pregressa de alergia aos componentes metálicos, deve ser cuidadosamente avaliada8.

-Cabeças Femorais Metálicas modificadas ou o uso de cabeças cerâmicas em implantes acetabulares metálicos ainda não apresentam resultados clínicos em longo prazo, que justifiquem sua utilização rotineira.

VI. QUANDO FAZER A CIRURGIA?

        O fato de o paciente somente ter um desgaste na junta do quadril não quer dizer que ele tenha que ser operado imediatamente, ou com urgência. Se a dor não é muito forte e é possível ao paciente realizar as atividades mais importantes do dia-a-dia, sem o uso constante de analgésicos, e sem perda acentuada da qualidade de vida, a cirurgia pode esperar, sem nenhum problema. Somente em alguns casos raros a doença pode piorar muito depressa, mesmo sem muitos sintomas, e a operação deve ser feita mais precocemente. Nestes casos seguramente o seu médico irá alertá-lo para estas possíveis circunstâncias. Mesmo que o desgaste da junta já esteja causando muita dor e incapacidade, a cirurgia de prótese não é uma cirurgia de urgência e, portanto primeiramente temos que fazer todos os exames para avaliar o estado atual de saúde do paciente e corrigir algum problema que possa aumentar a chance de complicações durante e depois da operação. Portanto a cirurgia pode ser marcada de acordo com o seu estado clinico, sua conveniência, do hospital e da equipe cirúrgica.

VII. QUAIS SÃO OS POSSÍVEIS RISCOS E COMPLICAÇÕES DA CIRURGIA?

        Muito embora os principais riscos e as complicações mais freqüentes descritas abaixo possam preocupar o paciente que irá se submeter à cirurgia de ATQ, é preciso esclarecer que todas estas complicações já são consideradas na relação risco/benefício e, portanto os benefícios superam em muito os possíveis riscos e complicações do procedimento cirúrgico.
        Os riscos e complicações durante e depois da operação podem acontecer por causa de problemas de saúde que não tenham relação direta com a cirurgia do quadril e que, portanto podem acontecer em qualquer outro tipo de cirurgia (Riscos Gerais) ou problemas que acontecem especificamente nas operações do quadril, quando se implantam as próteses (Riscos Próprios da Cirurgia).
      Nos Riscos Gerais as principais complicações possíveis são os problemas circulatórios e cárdio-pulmonares que podem acontecer associados à anestesia e pelo próprio traumatismo da cirurgia.  Pode ainda acontecer, logo após a cirurgia, a Infecção, trombose venosa profunda (e Embolia Pulmonar quando um coágulo escapa da veia e vai para o pulmão) e complicações da ferida cirúrgica.
 

A. Infecção Protética: A infecção protética ocorre por contaminação do local cirúrgico, e é conhecida frequentemente como Infecção Hospitalar. Porém a infecção que ocorre mais tardiamente pode estar associada às bactérias que são levadas ao local da prótese a partir de outros locais que apresentem uma infecção, como a pele, rins e bexiga, pulmões etc.
        A taxa de infecção aguda da ferida cirúrgica pode oscilar entre 0.5 a 2% e manifesta-se frequentemente por drenagem persistente após o 4º dia pós-operatório, calor e vermelhidão (hiperemia) no local da cirurgia. Nestes casos, de acordo com indicação médica, a lavagem e limpeza imediata do local cirúrgico podem estar indicadas.
        Para a prevenção da infecção, o uso de antibióticos endovenosos se mostra bastante eficaz, assim como a identificação de pacientes com maior risco de contrair infecção como, por exemplo, pacientes com infecções urinárias de repetição (entre os idosos é comum a presença de bactérias em quantidade aumentada na urina, em cerca de 10% dos homens e 20% das mulheres), como conseqüência de distúrbios da próstata, prolapso de bexiga, ou ainda a bexiga neurogência; infecções pulmonares de repetição (mais comuns em pacientes com doença pulmonar crônica), infecções ativas como as fístulas ano-retais, infecções periodônticas, pacientes diabéticos etc. Nestes casos a avaliação clínica e o julgamento médico com relação às medidas a serem tomadas e o tipo de antibiótico a ser utilizado, são de extrema importância na prevenção da infecção pós-operatória.

B. Tromboembolismo Venoso (TEV):
Chamamos de tromboembolismo venoso a condição clínica em que ocorre a trombose venosa profunda (TVP) e/ou a embolia pulmonar. A Trombose Venosa Profunda ocorre quando se forma um coágulo (trombo) sanguíneo no interior de veias profundas, mais frequentemente na perna ou na coxa do paciente, causando o entupimento desta veia (Fig. 4). A embolia pulmonar ocorre quando o coágulo (ou trombo) se desprende das paredes das veias e é levado pela corrente sanguínea até o pulmão, causando a embolia pulmonar.
 

Figura 4. A Trombose Venosa Profunda ocorre quando se forma um coágulo (trombo) sanguíneo no interior de veias profundas, e a embolia pulmonar ocorre quando o coágulo (ou trombo) se desprende das paredes das veias e é levado pela corrente sanguínea até o pulmão

Figura 4. A Trombose Venosa Profunda ocorre quando se forma um coágulo (trombo) sanguíneo no interior de veias profundas, e a embolia pulmonar ocorre quando o coágulo (ou trombo) se desprende das paredes das veias e é levado pela corrente sanguínea até o pulmão


Esta condição de embolia pulmonar é potencialmente fatal, e pode levar à morte de até 1/3 dos pacientes quando não tratados adequadamente. A ocorrência do TEV é bastante freqüente após a artroplastia do quadril em pacientes que não receberam medidas preventivas. Desta forma é de extrema importância fazer a profilaxia do TEV em todos os pacientes submetidos à prótese de quadril. Esta prevenção pode ser feita por medidas mecânicas e substâncias anticoagulantes. Esta prevenção é bastante efetiva e deve ser mantida pelo período pós-operatório em que o risco de fenômenos trombo-embólicos ainda esteja presente. Quanto ao uso de anticoagulantes, uma adequada avaliação clinica do risco de sangramento e do risco de ocorrência do TEV devem ser considerados.

C. Complicações da Ferida Cirúrgica: Quando não associada às causas infecciosas, as complicações da ferida cirúrgica são pouco freqüentes e podem se manifestar pela formação de uma coleção de sangue (hematoma) ou retardo no processo de cicatrização. Nestas condições o acompanhamento médico mais freqüente é indicado, até que a ferida esteja completamente cicatrizada.

As complicações e Riscos Próprios ou específicos da Artroplastia de Quadril podem ser:

A. Luxação (desencaixe) da prótese: Pode ser causada pelo posicionamento não muito adequado da prótese durante a operação, porém o que pode frequentemente causar a luxação ou desencaixe da prótese é o fato do paciente não obedecer  às restrições de posições, e movimentos que ele tem que evitar nos primeiros 2 meses depois da operação. O tipo de restrição de movimentos depende do tipo de abordagem cirúrgica utilizada pelo médico, e assim pergunte sobre as orientações para seu caso específico. Esportes, mais agressivos nunca deverão ser feitos, porém, após a liberação pelo médico, pode-se dançar, fazer hidroterapia, caminhada, golfe, ou seja, atividades mais leves. Se você ainda tiver duvida do tipo de atividade que você pode fazer, mesmo muito tempo depois da cirurgia, pergunte para o seu médico.

B. Alongamento ou encurtamento da perna (do Membro Inferior): é quase sempre causada pelo alongamento do membro operado e muitas vezes é um recurso utilizado pelo cirurgião para aumentar a estabilidade da prótese e assim prevenir o desencaixe ou luxação.  Por outro lado, quando existe um encurtamento muito grande antes da operação, às vezes não se consegue igualar o comprimento, por que pode causar a paralisia dos nervos (geralmente o nervo ciático). Pequenas diferenças no comprimento dos membros são pouco sintomáticas e raramente são motivos de insatisfação do paciente.

C. Complicação nos Nervos da Perna (membro inferior):    Não é muito comum, mas em alguns casos (quando o paciente já tem encurtamento grande e desgaste por luxação congênita do quadril, por exemplo) ela pode acontecer. O mais comum de acontecer é o nervo ciático deixar de funcionar adequadamente.  Neste caso o pé pode ficar dormente e o seu movimento para cima (dorsiflexão) pode ser afetado. Em grande parte dos casos esta ocorrência é transitória e tende a voltar com o tempo, porém em algumas circunstâncias a deficiência pode ser permanente.  Outros nervos que, menos freqüentemente, podem paralisar (bem mais difícil de acontecer e na maior parte das vezes temporário) são os nervos, femoral ou o nervo femorocutâneo lateral da coxa, dependendo do tipo de abordagem ao quadril utilizada pelo médico.

As Complicações que podem acontecer mais tardiamente (alguns anos após a operação) são:

A. Infecção: Por bactérias que estão em algum outro lugar do corpo (fonte de infecção ativa), como nos dentes e gengiva, pele e subcutâneo (abscessos), pulmões, urina entre outros. Por este motivo quaisquer focos de infecção quando percebidos pelo paciente devem ser imediatamente comunicados ao médico ou equipe que o operou. Da mesma forma o paciente deve contatar o ortopedista sempre que for submetido à procedimentos invasivos, mesmo mais simples como a sondagem vesical, cirurgia periodôntica e endodôntica (gengiva ou canal), drenagem de abscessos etc.
B. O Desgaste acontece na junta da prótese. Se a sua junta natural (que você nasceu com ela) desgastou, a junta da prótese é claro que também pode desgastar, e por isto dizemos que os implantes tem um tempo de vida útil em serviço (a sobrevivência da prótese de quadril é por volta de 80% em 25 anos de seguimento). É claro que o desgaste depende também do uso, e por isto as pessoas mais jovens usam mais a prótese (andam mais) e por isto gastam mais depressa. O desgaste provoca a formação de partículas que podem o atacar o osso e causar lesões (osteólise) ou soltura dos componentes da prótese. Se isto acontecer os implantes têm que ser trocados (Cirurgia de Revisão)

C. A soltura dos Implantes Protéticos pode ocorrer nos componentes femoral e acetabular, sejam eles cimentados ou não cimentados. Seja de origem mecânica ou biológica, a soltura é uma das causas importantes de falha dos implantes protéticos, e que assim limita sua durabilidade9. Neste processo, ou o cimento ou o implante não cimentado se soltam do osso e assim passam a apresentar um movimento anormal dentro do osso. Além da dor causada pela soltura, o atrito constante pelo movimento dos implantes podem causar maior destruição óssea e portanto os componentes precisam ser trocados, através da cirurgia de revisão de artroplastia.


VIII. COMO É FEITA A RECUPERAÇÃO DEPOIS DA CIRURGIA?

        Por causa dos diferentes tipos de abordagem, de implantes e de técnicas, o processo de reabilitação pode ser um pouco diferente de acordo com o entendimento do cirurgião. Porém como princípio podemos dizer que uma reabilitação mais precoce, com exercícios e treino de marcha com auxilio de andador, muletas ou bengalas são bastante recomendados10. Estas medidas auxiliam na prevenção de complicações que acontecem quando o paciente fica muito tempo deitado e imóvel (como por exemplo, a trombose venosa profunda e complicações cardio-respiratórias). Desta forma os pacientes devem ser tratados  através de protocolos que incluam várias sessões de fisioterapia durante a internação e depois da alta, realizando os exercícios de acordo com as instruções do fisioterapeuta da equipe.

IX. É NECESSÁRIO O ACOMPANHAMENTO MÉDICO ROTINEIRO EM PACIENTES COM PRÓTESE DE QUADRIL?

        Lembre-se que quando você é submetido a uma cirurgia de prótese de quadril você tem que ser examinado rotineiramente, mesmo que você se sinta bem e ache que não tem nada errado com a prótese, para que quaisquer problemas nos implantes ou no osso possam ser encontrados mais cedo e assim tratados também precocemente para evitar complicações maiores mais tarde.
        Alguns médicos acreditam ser necessário o acompanhamento anual, outros a cada 2 anos. De qualquer forma a cada um ou dois anos, você deve procurar o médico que o operou e submeter-se a uma avaliação cínica e radiográfica, para que possa ser avaliada a funcionalidade da prótese, o posicionamento dos implantes, quaisquer sinais de desgaste, soltura, destruição óssea ou infecção.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1. Jones CA, Voaklander DC, Johnston DW, Suarez-Almazor ME. Health related quality of life outcomes after total hip and knee arthroplasties in a community based population. J Rheumatol 2000; 27(7): 1745-52.

2. Ethgen O, Bruyere O, Richy F, Dardennes C, Reginster JY. Health related quality of life in total hip and total knee arthroplasty. A qualitative and systematic review of the literature. J Bone Joint Surg Am 2004; 86-A(5): 963-74.

3. Callaghan JJ, Albright JC, Goetz DD, Olejniczak JP, Johnston RC. Charnley total hip arthroplasty with cement: minimum 25-year follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2000; 82:487-497.

4. Gomes LSM. Biomateriais em Artroplastia de Quadril: Propriedades, Estrutura e Composição. In: Luiz Sérgio Marcelino Gomes et al. Eds. O Quadril. São Paulo: Atheneu; 2010:121-143.

5. Gomes LSM. Tribologia de Superfícies Articulares Protéticas. In: Emerson Kiyoshi Hondal. Ed. Clínica Ortopédica da SBOT: Artroplastia Total do Quadril. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;2009:25-40